Para Danielle Cristina
Quem não haveria de possuir uma ferida de estimação. Quem não haveria de ter aquela dúvida que solenemente mora em seu coração, durante todos os dias, durante cada minuto remoe mais e mais. Minhas víceras já estão tão frágeis, assim como toda minha essência. Parece mentira, enquanto tento que tudo pareça a mais doce verdade. De doce nada tem. Tinha há algum tempo atrás, mas perdi. O problema não é o fato de não haver, e sim o fato de que tua presença tornou-se a minha ferida favorita, e dói. Vou te contar, como dói. Arde de uma forma, arde de todos os lados, até que começo a conversar com ela. Penso que é uma maneira de fingir que você ainda está ali. Conto sobre meu dia, e conto que preciso chorar, ainda que lágrima nenhuma caía, te conto o que se passa em meu coração. O mesmo coração que você mora. Deve ter percebido como ele está mais sujo, mais podre, menos digno. Deve ter percebido, e se não percebeu, então está tão cega quanto eu. Debatendo-se entre as quinas das esquinas. Ainda olho para aquela parede, todas as vezes que caminho por ali, pena que não são muitas. Toda vez, rara, que passo por ali, lembro. E lá vem aquela dor arder, até que comece novamente a conversar, ela vai se acalmando, percebe que ainda não esqueci que está ali. Então desiste e volta a ficar calada, quase serena, se não fosse pelas vezes que resolve gritar. E quando ela grita, como grita. Vou te contar, como grita. Só sei que nessas horas, preciso fingir que não escuto e continuar caminhando, naquelas passos largos e rápidos, naquela minha péssima mania de tentar concertar tudo. Nessas horas, não tem concerto, não tem o que fazer, senão esperar. Olha, é difícil. São lembranças rasgadas e guardadas pelos cantos de cadernos, são músicas que fico cantarolando e chorando e cantarolando novamente, são as minhas ilusões sem beira, e o pior, aquela minha taquicardia que só parava quando deitava sobre teu ombro. Agora imagine tudo isso com uma ferida doendo e um coração gritando. Certa vez, estava cansada de tanto drama e resolvi perguntar, o que isso significava, e sabe o que ele teve a ousadia de responder – é saudades, é saudades. Assim mesmo, meio cantadinho, meio com teu jeito de apaziguar.