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Cabe a mim denominar meus maiores receios. Numerá-los em ordem, crescente ou decrescente. Entiquetá-los e guardá-los em algum vácuo de meu corpo. Entre tantas tristezas, escolho as maiores para ocupar a lista de insignificantes. Eis que as menores possuem valor maior, quais reviraram constantemente meus sentimentos. Estas por sua vez, foram passageiras. Agonias desamparadas que fizeram encontrar-se com as últimas migalhas de meu coração.
Foi no trem, a primeira vez que lhe encontrei, encostado em um vão vazio de bancos. Mesmo assim, ainda estava estático sobre suas pernas. Não se mechia. Não piscava um olho sequer. Tornei disto um hábito. Novo cotidiano. Acordava ás sete da manhã para encontrá-lo feito estátua no mesmo lugar. Tornei a perguntar se era uma visão, unicamente minha, uma faceira miragem dos meus mais sórdidos desejos. Era o ideal que sonhara, desde que foi me dado um nome. Era um pequeno garoto, dos dez anos não passava. Mesmo assim, continuava parecendo ideal. Dono de olhos amendoados e mãos longuíneas. Finas, fino. Não parecia se interessar por outra coisa, senão por sua sacola de frutas, que carregava a sua direita. Ali, parecia encontrar-se sua vida, bem mais precioso. Poucos foram os dias que avistei um sorriso envergonhado nascer em sua fronte. Um, apenas um momento, me és recordado. Sequer respondia meus olhares furtivos, que vagueavam perdidos em seu corpo.
Amor não poderia ser chamado. Não sabia nem qual era sua graça. Se soubesse, aí sim, diria que era amor. Fulminante, daqueles que arrebatam de uma só vez. A graça que lhe foi dada, talvez não importe neste instante. Talvez no dia seguinte, ele nem esteja na mesma posição. Mesmo assim, desde que o desejei, ele havia se tornado parte de mim. Assim como o sentimento que havia se tornado único pois este já havia conquistado.