Pergunto-me se ainda há uma maneira de fugir de tamanha agonia. Enquanto as luzes se apagam, sinalizam o fim do dia, pensamentos surgem sorrateiros. A todo instante. Pergunto-me o preço para cada erro que cometemos, a forma como pagamos. Corpo, coração e alma. Listadas as opções, basta sugerir aquela que afogue melhor suas mágoas. Receios acomulados. Desamparados. Sentada entre as últimas frestas de luz, raios que me fazem companhia.
- Por que choras atordoada? – eles perguntam, brilhando ao meu redor.
- É a falta, culpe ela – retruco.
- Apenas ela?
- Pode culpar a solidão também - se os raios demontram-se espertos, tenho de me tornar superior. Não me importar com suas persuasões.
- E tu? Não és culpada? – fico calada por um instante.
- Não sejam tolos! Que culpa teria?
Essa é a sua persuasão. Fui vítima outra vez. Aproveitam que estou melancólica para jogar-me contra a própria vida. Atiram-me na primeira tempestade que avistam. Se tenho culpa, já não sei. Pergunto-me o que acumulo em mim, além dos receios. Encontro vestígios de um amor passado. De um desejo inusitado, que parece não querer voltar.
- Esta é a culpa, amar – os últimos raios sussuram delicados. Acalentam mais um fim, e partem sem se importar.